terça-feira, 22 de julho de 2008

conjecturas.iii

A mão poderia ser vista como o deságüe do corpo?
Poderia, sem dúvida, ser vista como o deságüe do corpo no mundo, no ar, no mundo de outro corpo, extremidade de contato e transmissão de energia.
Dimitroff, imagino, tentava transmitir o próprio aniquilamento ao mundo doméstico que o cercava, à mulher que com a sua determinação resoluta de viver o mundo doméstico aos poucos aniquilava o marido, que já não passava de ser o pai de seus filhos, um elemento fixo dentro da estrutura das coisas, a dimensão do mundo doméstico.
Ao cortar a própria mão, Dimitroff quis, conjeturava eu enquanto olhava a borra do café ir tomando a forma de um kismet qualquer que talvez fosse o kismet de um Estado independente que não pode existir politicamente mais que o tempo que a borra de café leva para desfazer a sua forma geográfica, um corte no deságüe do desejo anarquista, um corte na necessidade de liberdade, conjeturava eu enquanto pensava na mão cortada de Dimitroff e que com esse gesto frio, porém desesperado, furioso e impulsivo e automutilador, contudo cerebral, ele buscava não apenas demonstrar que o que vinha sendo represado há um longo tempo em suas veias, o desejo de ser um Estado independente, atingira seu ponto de transbordamento, mas também, e fundamentalmente, que o membro de contato do corpo estava fadado ao apodrecimento, à gangrena, à antivida, morte pior que a morte.
Fiume, Rijeka. Um Estado independente no período entre-guerras. E que espaço de tempo seria mais adequado? O nome significa rio em italiano. Rio. Fiume em italiano, Rijeka em croata. O nome do país da liberdade significa rio. E que nome seria mais apropriado? Ele passa a se referir ao seu mundo interior, à chama infernal que arde seus pensamentos quando se encontra enfurnado na vida prevista não na borra no fundo da xícara mas no raso débil e aburguesado da escola, da hierarquia, da ordem, dos vizinhos, ele passa a se referir ao sangue que jorra do membro pendurado pelo ombro e que ele entende ser o seu kismet, ele passa a se referir a isso como o seu kismet.
Dimitroff volta para casa depois de ler sobre Fiume, Rijeka. O que já era uma idéia se transforma em obsessão e sonho. Nem fugir nem escapar. Dimitroff quer um deságüe, encontrar uma baía que receba o curso do rio do seu corpo, que ofereça um destino ao sangue selvagem que corre nas suas veias e luta contra a ordem do mundo domesticado que não seja a amputação.
Existe realmente o amor incondicional?, pensava ele. Se sou capaz de abdicar da minha própria mão, mais ainda, se sou capaz de decepar minha mão do meu braço e mutilar meu corpo em nome da vida do meu espírito, em nome da liberdade, alguma, mesmo que fosse apenas um gesto simbólico que dissesse "sim, eu respiro, ainda, eu ainda tenho o desejo do ar", porque não poderia pela mesma razão desaparecer como o grande mágico Houdini? Deveria pensar que devo alguma coisa a quem quer que seja? A essa mulher que não sei mais quem é, ou por outra sei bem demais e isso faz com que, no fundo, não queira saber realmente, aos filhos que já são filhos do mundo e estão imersos na própria imbecilidade dócil que mede suas vidas domésticas, e digo isso de minha família sem nenhum tipo de rancor, remorso, arrependimento, vergonha ou juízo de valor, o que digo deles é inferido em mim, obviamente, digo deles o que digo de mim e da minha mão cortada, se assim não fosse a mão estaria repousando tranqüilamente no braço à espera do envelhecimento e do apodrecimento inapeláveis, uma extinção idiotizada e domesticada. Não devo pensar nada nesse sentido então, não devo pensar que devo algo a alguém, devo pensar que devo algo à minha mão, ao gesto que a decepou, gesto máximo de altruísmo e amor-próprio. Porque cortei minha mão esquerda posso e devo ser dono do destino do sangue que jorra, do seu kismet.
Quando chegou ao porto do Estado Livre de Fiume carregando num saco vermelho a própria mão decepada depois de viajar na máquina invisível do tempo, Dimitroff Otanos sentou no cais e olhou longamente as águas do Mar Adriático. Estado Livre de Otanos, Dimitroff pensou, abrindo o saco. O sol refletia no mar e nos seus olhos. Não há lágrimas, pensou, com o sol nos olhos, segurando a própria mão decepada.
Naturalmente, como se nada, sem espanto de nenhuma alma, a mão desejou de volta o braço do corpo libertado.
E assim foi, pensei, assim teve início a vida desconhecida e obscurecida de Dimitroff Otanos, aquele que passou trinta anos desaparecido (para os outros), no limbo (para os outros), na sombra (para os outros), vivendo o seu kismet (para si e para mim), conjeturei olhando a borra de café perder a consistência e se transformar numa massa negra indistinguível.

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