quarta-feira, 6 de agosto de 2008

conjecturas.iv

Nunca houve pista alguma. Se houvesse, a mulher-dimitri o teria farejado, ou pelo menos seguido seu rastro com mais pontaria. Ela jamais encontrou o que quer que fosse. Nem aqui nem nessa vida. Nem mesmo quando o marido voltou ― quando voltou o marido disse que não diria nada sobre o passado, e que essa era uma condição, a única, para que voltasse a sentar de novo no mesmo sofá bege escuro que sempre havia odiado em silêncio e onde os filhos haviam golfado inúmeras vezes.

Uma pesquisa que não se baseia em dados, eu disse em voz alta olhando o copo cheio em cima da mesa. Uma pesquisa mental, uma pesquisa filosófica, ou melhor, uma investigação cujo eixo gira em torno da especulação, da imaginação, da suposição, do achismo, da fantasia, do vazio, da vida. Uma pesquisa mental e uma investigação do espírito, das possibilidades que se abrem a quem decide que já é hora de sair de cena, escapar, desaparecer.

Uma mão decepada acena o adeus silente que se carrega na bolsa.

O senhor Otanos, eu leio, era um homem neutralizado pela rotina. Entrava e saía todo dia das cenas 1 (casa), 2 (rua) e 3 (trabalho), mas nunca abandonava o quadro, os limites da moldura que determina a utilidade da vida burguesa. Um dia, saiu de 1 para 2 para 3 e transpôs a moldura como se fosse um fantasma. O senhor Otanos, eu leio com o copo na mão, era uma pessoa digna, um chefe de família que tinha como única idiossincrasia a coleção de pentelhos femininos que arquivava desde os quatorze anos quando uma prima de Odessa visitou a casa de Petersburgo e lhe deu um pequeníssimo pêlo crespo que estava encravado na virilha a título de apresentação.
O desejo projetado na vida de outro. A mesma imobilidade que corrói os ossos do corpo sedentário. O mundo como um filme de terror psicológico hermético e vivido em câmera lenta. Eu não mudo de opinião, ele pensou de novo. Queria escrever um livro de sensações que fossem transmitidas musicalmente. As mãos trêmulas segurando a xícara de café. O espírito cada vez mais pálido, neutro.

sábado, 2 de agosto de 2008

Solavancos



Hoje tomei uma decisão: Passar o próximo verão sem preocupações. "E aí? Alguma novidade?"; "Alguma notícia?"; "E a polícia o que é que acha?". Já nem respondo mais. Preciso mandar alguém à merda e também sumir, largar tudo, deixar isso para trás e naufragar no oceano dos desaparecidos.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Anotação

21:34, casa:




Na hora do almoço, lendo o jornal no restaurante, vi uma foto. A foto mostrava um lugar daqui, perto da costa, que eu nunca tinha visto. A idéia de tamanho deslumbre perto de mim e a consciência de que eu nunca quis ou pude (qual seria a melhor saída para minha culpa?) ir logo ali vislumbrar essa vista - e não importa se logo ali são horas, dias ou anos - foi o tiro fatal. A foto (que recortei e colo aqui) me esmagou. Sua beleza, digo melhor, me esmagou.


Fechei o jornal, pedi a conta e pedi demissão do trabalho.



Falta pouco. Muito pouco.






quinta-feira, 24 de julho de 2008

Anotação

21/07


E se eu simplesmente sumisse? Ou melhor, e se eu simplesmente desaparecesse por completo, sem rastros ou vestígios? Idéia macabra. E perfeita. Sem comunicar que quero ir embora, sem me justificar do porquê dessa decisão (eu saberia justificá-la?)... Ao invés de arremessar pela janela apenas minha mão cortada, me arremessar por completo no mundo - mundo esse que não conheço. Sumiria, penso agora, de forma pura e profilática, sem dor porém sem anestesia. Corte seco e implacável, daqueles que sangra apenas o necessário para que lembremos que, ali, existiu um dia algo que foi cortado. Apenas a lembrança do corte, sem a nostalgia do corpo extirpado. Eu posso sumir. A questão é apenas uma só: como não deixar rastros ou vestígios? Como desaparecer por completo sem passado presente futuro que não sejam um silêncio completo?

Para tudo existe um jeito.

terça-feira, 22 de julho de 2008

conjecturas.iii

A mão poderia ser vista como o deságüe do corpo?
Poderia, sem dúvida, ser vista como o deságüe do corpo no mundo, no ar, no mundo de outro corpo, extremidade de contato e transmissão de energia.
Dimitroff, imagino, tentava transmitir o próprio aniquilamento ao mundo doméstico que o cercava, à mulher que com a sua determinação resoluta de viver o mundo doméstico aos poucos aniquilava o marido, que já não passava de ser o pai de seus filhos, um elemento fixo dentro da estrutura das coisas, a dimensão do mundo doméstico.
Ao cortar a própria mão, Dimitroff quis, conjeturava eu enquanto olhava a borra do café ir tomando a forma de um kismet qualquer que talvez fosse o kismet de um Estado independente que não pode existir politicamente mais que o tempo que a borra de café leva para desfazer a sua forma geográfica, um corte no deságüe do desejo anarquista, um corte na necessidade de liberdade, conjeturava eu enquanto pensava na mão cortada de Dimitroff e que com esse gesto frio, porém desesperado, furioso e impulsivo e automutilador, contudo cerebral, ele buscava não apenas demonstrar que o que vinha sendo represado há um longo tempo em suas veias, o desejo de ser um Estado independente, atingira seu ponto de transbordamento, mas também, e fundamentalmente, que o membro de contato do corpo estava fadado ao apodrecimento, à gangrena, à antivida, morte pior que a morte.
Fiume, Rijeka. Um Estado independente no período entre-guerras. E que espaço de tempo seria mais adequado? O nome significa rio em italiano. Rio. Fiume em italiano, Rijeka em croata. O nome do país da liberdade significa rio. E que nome seria mais apropriado? Ele passa a se referir ao seu mundo interior, à chama infernal que arde seus pensamentos quando se encontra enfurnado na vida prevista não na borra no fundo da xícara mas no raso débil e aburguesado da escola, da hierarquia, da ordem, dos vizinhos, ele passa a se referir ao sangue que jorra do membro pendurado pelo ombro e que ele entende ser o seu kismet, ele passa a se referir a isso como o seu kismet.
Dimitroff volta para casa depois de ler sobre Fiume, Rijeka. O que já era uma idéia se transforma em obsessão e sonho. Nem fugir nem escapar. Dimitroff quer um deságüe, encontrar uma baía que receba o curso do rio do seu corpo, que ofereça um destino ao sangue selvagem que corre nas suas veias e luta contra a ordem do mundo domesticado que não seja a amputação.
Existe realmente o amor incondicional?, pensava ele. Se sou capaz de abdicar da minha própria mão, mais ainda, se sou capaz de decepar minha mão do meu braço e mutilar meu corpo em nome da vida do meu espírito, em nome da liberdade, alguma, mesmo que fosse apenas um gesto simbólico que dissesse "sim, eu respiro, ainda, eu ainda tenho o desejo do ar", porque não poderia pela mesma razão desaparecer como o grande mágico Houdini? Deveria pensar que devo alguma coisa a quem quer que seja? A essa mulher que não sei mais quem é, ou por outra sei bem demais e isso faz com que, no fundo, não queira saber realmente, aos filhos que já são filhos do mundo e estão imersos na própria imbecilidade dócil que mede suas vidas domésticas, e digo isso de minha família sem nenhum tipo de rancor, remorso, arrependimento, vergonha ou juízo de valor, o que digo deles é inferido em mim, obviamente, digo deles o que digo de mim e da minha mão cortada, se assim não fosse a mão estaria repousando tranqüilamente no braço à espera do envelhecimento e do apodrecimento inapeláveis, uma extinção idiotizada e domesticada. Não devo pensar nada nesse sentido então, não devo pensar que devo algo a alguém, devo pensar que devo algo à minha mão, ao gesto que a decepou, gesto máximo de altruísmo e amor-próprio. Porque cortei minha mão esquerda posso e devo ser dono do destino do sangue que jorra, do seu kismet.
Quando chegou ao porto do Estado Livre de Fiume carregando num saco vermelho a própria mão decepada depois de viajar na máquina invisível do tempo, Dimitroff Otanos sentou no cais e olhou longamente as águas do Mar Adriático. Estado Livre de Otanos, Dimitroff pensou, abrindo o saco. O sol refletia no mar e nos seus olhos. Não há lágrimas, pensou, com o sol nos olhos, segurando a própria mão decepada.
Naturalmente, como se nada, sem espanto de nenhuma alma, a mão desejou de volta o braço do corpo libertado.
E assim foi, pensei, assim teve início a vida desconhecida e obscurecida de Dimitroff Otanos, aquele que passou trinta anos desaparecido (para os outros), no limbo (para os outros), na sombra (para os outros), vivendo o seu kismet (para si e para mim), conjeturei olhando a borra de café perder a consistência e se transformar numa massa negra indistinguível.

Anotação

12:43

se eu for, quem vai me reivindicar? essa vida desperdiçada? essa família? Nem sei o que argumentar a mim mesmo contra a sensação de que não farei falta. É duro você se convencer de sua própria pequenez.

15:27

Li no jornal durante mais uma longo e penoso almoço com ela que um homem foi preso alegando ser de um país que, segundo as autoridades, não existe. Creio que o nome do país era Fiume. Mas só creio, porque ela nem esperou dez minutos após eu largar o jornal e já o usou para qualquer coisa doméstica que só pessoas como ela são capazes de aguentar. Essa rotina que me sufoca - e que faz eu querer me sufocar - ela segue religiosamente. Quase como uma demência nata que não se questiona.

Procurar mais dados sobre a República de Fiume.



22: 34

Não é ela o motivo primeiro da minha asfixia. Quando ela se encosta em mim para se proteger do frio, durante o sono obrigatório, uma centelha de felicidade me atinge. Quase recuo.

Não é apenas ela. É o conjunto da obra.


23: 04


penso novamente em cortar minha mão. Preciso ficar longe do ócio. E das facas.

preciso ir embora.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

conjecturas.ii

Dimitroff em Fiume prevendo o pescoço quebrado de Wertheimer na frente da casa da irmã na suíça e a reação desprezível e malcheirosa do marido da irmã, aquele interesseiro sem classe, austríaco de espírito, possuidor de tudo o que caracteriza o que há de pior e mais mesquinho, tudo o que há de pior e mais desumano, tudo o que conhecemos como o denominador comum católico e nacional-socialista do caráter austríaco, foi isso que Dimitroff previu enquanto olhava as margens do mar Adriático, o aniquilamento definitivo daquele que perde, se afoga, naufraga e tem o seu pescoço quebrado pela vida, peso morto pendurado na árvore, peso morto pendurado na poltrona na sala com a janela aberta no primeiro andar.

O investigador encontra o rastro de Ottanos nas margens extintas de Fiume, e o rastro é a mão cortada de Dimitroff dentro de uma caixa do lado de fora da máquina do tempo.