sábado, 19 de julho de 2008

conjecturas.i

Sim, foi por aí. Uma nota, um fait divers clássico que parecia falso, completamente improvável. Uma isca do mundo apócrifo. Liguei o som do computador para escrever (realmente, o avanço da história, que normalmente vai para trás, com motor de proa, nos aniquila, extingüe a nossa humanidade, uma máquina de escrever é uma máquina de escrever e assim por diante, apenas um gramofone no passado distante) e ouvi muito claramente a voz da mulher gritando desesperada shame is the shadow of love. O acaso é a ponte que liga o universo e eu penso na sombra cobrindo o dia de Dimitroff. Como explicar um sumiço de trinta anos, como explicar a volta depois de um sumiço de trinta anos. O que são trinta anos?, eu pergunto. Quando você se deu conta da própria vida, quantos anos já haviam passado? Você já tinha tatuado na pele o sinal mais forte da vida, o sinal divino que diz velhice, morte, queda, extinção?



sexta-feira, 18 de julho de 2008

Nem a brandura do inverno...

posso começar um texto assim, pensei, durante a caminhada de volta. Dar um tempo ou acabar de uma vez com tudo e voltar ao texto, voltar a escrever. Durante a caminhada encontrei um amigo em um bar. Ele me reconheceu e acenou, acenei de volta e pensei nesse gestual das ruas. Pensei que alguns gestos dizem e valem mais que as palavras. Foi exatamente o que aconteceu naquela hora, o gestual disse muito mais do que todas as palavras que eu já troquei com aquele amigo. Talvez o gestual das ruas diga muito mais do que mil palavras, muito mais que todas as palavras já escritas em todos os livros, todos os recados, bilhetes, cartas, mensagens, artigos, ensaios ou peças. Escrever é um exagero. Escrever para si mesmo é um exagero. Escrever para os outros é um exagero. Escrever por escrever é um exagero. Mas deixar de escrever também é, pensei.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Anotação



Cortar a mão e jogá-la pela janela. Apenas para ver alguma parte minha em liberdade.